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Baixe aqui as apresentações dos palestrantes

Confira abaixo as apresentações usadas pelos palestrantes durante o Transformar 2015. Em breve, serão disponibilizadas mais apresentações.

Clique no nome do palestrante para abrir e fazer o download:

Camila Achutti
Cândido Moura
Cleide Torres
Eric Rodrigues 
Geoff Mulgan
Gonzalo Pérez
Ivanês Oliveira Alexandrino
Izabel de Souza
Jason Lange
Jennifer Adams
Kimberly O’Malley
José Augusto de Melo Neto
Lívia Hollerbach e Mariana Fonseca
Lou Yeoah
Marco Namura
Marjo Kyllönen
Nate Otto
Nuricel Villalonga
Paulo Blikstein

Espaço maker traz experimentação para o Transformar

Na terceira edição do Transformar, que aconteceu hoje (25), em São Paulo, a aprendizagem maker não foi apenas tema de palestra. No mesmo espaço que abrigou debates sobre as principais tendências em educação durante todo o dia, os participantes puderam ver de perto o funcionamento de um laboratório maker. Além de fazerem tours para conhecerem ferramentas de fabricação digital, eles experimentaram algumas tecnologias e debateram sobre aprendizagem mão na massa.

O espaço foi montado pelo Programaê! em parceria com o FabLearn. Equipado com impressora 3D, cortadora laser, cortadora vinil, fresadora e kits educacionais, ele ficou aberto para o público durante todo o evento.

“Estamos falando de makers [no Transformar] e nada mais justo do que as pessoas poderem experimentar”, explicou Lucas Rocha, coordenador de projetos da Fundação Lemann e de iniciativas como o Programaê!. A arquiteta Heloísa Neves, do We Fab, foi uma das responsáveis pela concepção do ambiente. “A ideia é trazer para o espaço o conceito do movimento maker: empoderamento e autonomia”, contou.

Crédito: Luciana Serra

Crédito: Luciana Serra

No período da manhã, o ambiente teve a presença de alunos das escolas municipais Maria Ofelia Veneziani Pedrosa e Moacyr Benedito de Souza, de São José dos Campos (SP), que desenvolvem atividades no Programaê!. Eles participarem de oficinas que envolviam impressão em 3D, design, solução de problemas, prototipagem e criação de instrumentos musicais com a ferramenta Makey Makey.

Já na parte da tarde, foi a vez dos educadores colocarem a mão na massa para experimentarem ferramentas de prototipagem rápida e conversarem com o professor Paulo Blikstein, da Universidade de Stanford/Fab Lab, sobre a integração de espaços maker no currículo escolar. “As pessoas estão com muita vontade de fazer isso nas escolas. Eu senti pouca resistência, ou quase nenhuma, de aceitarem o que estamos propondo para a educação”, disse em entrevista ao Porvir. “Eu acho que essas ferramentas maker ajudam a realizar o talento que o professor já tem de ser criativo e pensar em formas diferentes de ensinar”, completa.

A professora de projetos, tecnologia educacional e ciências aplicadas Eliene Santana, do Colégio Nossa Senhora do Rosário (SP), visitou o espaço de experimentação e afirmou achar interessante a possibilidade de ouvir outros educadores e compartilhar experiências. “O que chamou a minha atenção é que na verdade todo mundo pensa em integrar o currículo, mas a maioria dos professores fazem atividades separadas”, destacou. “É algo totalmente possível de ser feito. Basta ter vontade e aceitar o desafio”, afirmou o professor de língua portuguesa Cristiano Dias de Souza, do Colégio Interativa de Londrina (PR), que também passou para conhecer o espaço.

Crédito: Luciana Serra

Crédito: Luciana Serra

Fora do espaço de experimentação, durante sua apresentação sobre aprendizagem mão na massa, que aconteceu nas palestras de abertura do evento, o professor da Universidade de Stanford defendeu a criação de ambientes de experimentação dentro da escola pública. De acordo com ele, isso serve como estratégia para despertar o interesse do aluno e aumentar o seu engajamento. “São formas de trazer o nosso aluno de volta para a escola. Trazer motivação e engajamento para que ele fique na escola.”

Blikstein também chamou a atenção para a necessidade de encontrar maneiras efetivas de avaliar a aprendizagem mão na massa. “Não adianta você medir o aprendizado maker com um teste de múltipla escolha porque ele é muito mais complexo e aberto”, afirmou. Para exemplificar algumas formas de avaliação, ele citou pesquisas que está desenvolvendo com seu grupo na Universidade de Stanford. Com o uso de sensores de movimento e dispositivos de condução de pele, eles monitoram o comportamento dos alunos e conseguem identificar padrões de aprendizagem.

Um dos questionamentos recorrente entre os educadores, que assistiram aos debates e visitaram o espaço de experimentação, foi a possiblidade de criação de um espaço maker dentro da escola pública. “Um jeito bom de começar esse trabalho são os kits de código aberto. Com esses kits de computação física dá para fazer muita coisa com um investimento muito pequeno”, exemplificou Blikstein. Ele sugeriu começar desse jeito, por pequenos estágios, e depois mostrar os resultados para conseguir apoio.

Crédito: Luciana Serra

Crédito: Luciana Serra

O Espaço Tecnologia, patrocinado pelo Google, também foi outro ambiente presente no evento. Os participantes puderam interagir com tecnologias educacionais que servem de suporte para o dia a dia na sala de aula. Entre os recursos apresentados no espaço estavam: o Espaço Ensino Híbrido, para integração de tecnologias ao currículo escolar; a plataforma Gatópolis, que oferece jogos de leitura e escrita; a plataforma de videoaulas YoutubeEDU; o ambiente de aprendizagem QMágico; a plataforma Kidu, que permite a criação de portfólio online; a plataforma Escola Digital; os aplicativos do Google Apps for Education; e Google Expeditions, que permite aos professores fazerem viagens de campo virtuais.

Transformar inova na experiência para discutir futuro da educação

Quatro palcos, um espaço com ferramentas tecnológicas para promover o aprendizado e um laboratório maker. Esse foi o cenário, sem paredes, que proporcionou uma experiência inovadora a cerca 900 gestores, educadores, investidores, empreendedores e lideranças sociais que passaram o dia reunidos no Espaço Vila dos Ipês, em São Paulo, nesta terça-feira, na terceira edição do Transformar. Promovido pelo Inspirare/Porvir, Fundação Lemann e Instituto Península, o evento reuniu especialistas e representantes de experiências inovadoras em educação de sete países para debater temas como currículo e transdisciplinaridade, competências para a vida no século 21, conectividade e empreendedorismo em educação.

Para acompanhar a maratona de debates, todos os convidados receberam fones de ouvido e tiveram que fazer escolhas: como tudo acontecia ao mesmo tempo, cada participante pode personalizar sua experiência no encontro. Enquanto em um palco a secretária de educação de Helsinque relatava as mudanças curriculares que estão em curso na Finlândia, em outro ao lado o presidente-executivo do Plano Ceibal, do Uruguai, contava como conseguiu conectar todas as escolas à internet banda larga no país. Ao mesmo tempo, também era possível realizar uma oficina de instrumentos musicais num laboratório de fabricação digital, promovido pelo Programaê! em parceria com o FabLearn, ou aprender sobre ensino híbrido no espaço de experimentação de tecnologias educacionais.

Crédito: Luciana Serra

Crédito: Luciana Serra

 

“Resolvemos colocar em prática algumas das ideias que defendemos e derrubamos as paredes do nosso evento. A ideia é permitir que vocês tenham mais autonomia e possam aproveitar o evento de forma personalizada”, explicou Anna Penido, diretora do Inspirare, no início do encontro.

Como todos estavam no mesmo ambiente, a interação entre os convidados foi facilitada, e ao longo de todo o dia, muitos aproveitaram para trocar ideias e fazer novos contatos, sem que isso atrapalhasse a dinâmica da programação. Quem queria prestar atenção nas palestras recebia o sinal da transmissão por rádio. Quem preferia fazer uma pausa, podia deixar o fone de lado.

Confira a galeria de fotos do #Transformar2015.

Um dos principais destaques da agenda, a finlandesa Marjo Kyllonen abriu o evento falando das mudanças necessárias no currículo para acompanhar as novas demandas do século 21 e aproximar a escola do mundo real. “Devemos nos concentrar no desenvolvimento da colaboração e de competências sociais para que os alunos se tornem pessoas responsáveis no futuro”. À tarde, quando Kyllonen voltou a outro palco para continuar essa conversa com Nuricel Vilallonga, do Instituto Alpha Lumem, e Jennifer Adams, diretora do departamento de educação de Ottawa, no Canadá, dezenas de perguntas foram encaminhadas a elas sobre o tema.

O movimento maker nas escolas, demonstrado ao vivo no Fablab montado no espaço, foi também abordado por Paulo Blikstein, professor da Escola de Educação e do Departamento de Ciências da Computação de Stanford, em um dos palcos. O brasileiro disse que inovações como laboratórios de criação maker precisam chegar à escola pública para fazer com que o aprendizado faça sentido para o aluno. Além disso, defendeu que a pesquisa acadêmica precisa tratar dos resultados do movimento maker. “Existe um ciclo para compra de um monte de equipamentos, mas todo mundo se esquece de medir o impacto. Essas tecnologias empoeiram e a TV diz que elas não funcionam”, afirmou, explicando que há cinco anos se dedica a isso em Stanford para que o ciclo não se repita.

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Além de palestras de especialistas, o Transformar 2015 também abriu espaço para que oito professores brasileiros, distribuídos nos quatro palcos simultaneamente, apresentassem experiências inovadoras com uso de tecnologia em escolas públicas. Em um deles, Eric Rodrigues, da Escola Municipal Emílio Carlos, no Rio de Janeiro (RJ), e Cleide Torres, da Escola Estadual Jardim Riviera, em Santo André (SP), mostraram diferentes realidades para implementação do ensino híbrido, metodologia que combina ensino online e offline. No primeiro caso, um professor motivado em uma escola com infraestrutura deficiente, enquanto no segundo a tecnologia demandou todo um trabalho de apropriação por parte dos professores.

Entre as tendências mais recentes discutidas durante o evento estão as novas formas de avaliação e certificação de aprendizados. O tema foi debatido à tarde, em um palco também muito concorrido, com a presença de Kimberly O’Malley, executiva do grupo Pearson, Nate Otto, diretor da organização de microcredenciais Badge Alliance, e Natacha Costa, diretora da Associação Cidade Escola Aprendiz. Eles relataram iniciativas que dão conta de avaliar e certificar competências como criatividade e trabalho colaborativo. No futuro, disse Otto, diplomas acadêmicos tendem a valer menos, o ensino passará a ser menos linear e, ao invés de um currículo, ganhará importância o portfólio de experiências. Ao falar de badges, representações simbólicas de aprendizado, ele mostrou como na Califórnia já foi criado um tipo de passaporte que acumula os feitos alcançados por alunos em diversas experiências, dentro e fora da escola.

A última palestra, realizada por Geoff Mulgan (leia a entrevista completa), diretor executivo do Nesta (Fundo Nacional para a Ciência,

Tecnologia e Artes do Reino Unido), trouxe um panorama das inovações educacionais pelo mundo. Novamente, o palestrante estimulou a interação entre os convidados e provocou a plateia a refletir sobre o que é inovar em educação e se os temas abordados durante todo o dia seriam realmente disruptivos ou apenas modismos. Para ele, a inovação não pode se restringir à educação. “Não precisamos de inovação em educação, mas de um sistema que leve inovação à economia e à sociedade”, concluiu.

“Prioridade é preparar jovens para serem agentes do mundo”

Palestrante da terceira edição Transformar, evento referência em inovação em educação no Brasil, o executivo-chefe da organização do Reino Unido Nesta(National Endowment for Science Technology and the Arts), Geoff Mulgan, é enfático ao recomendar ao Brasil e a todos os sistemas de educação do mundo o investimento na preparação dos jovens para a ação. “A maior prioridade é preparar os jovens para serem agentes do mundo, não apenas passivos observadores e consumidores. É disso que a economia vai precisar mais no futuro”, afirma.

Além de comandar a Nesta, organização que combina investimentos em empresas em estágio inicial, em projetos de áreas como saúde, educação e artes, e em pesquisa, Geoff preside a Studio Schools Trust, rede de escolas que mescla aulas expositivas com aprendizagem baseada em projetos e coaching. É ainda conselheiro de governos ao redor do mundo, membro de organizações ligadas ao trabalho e à inovação, professor visitante na London School of Economics and Political Science (LSE), na University College London (UCL) e na Universidade de Melbourne e professor regular na China Executive Leadership Academy.

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Crédito: Photographee.eu/Fotolia.com

 

Entre 2004 e 2011, Geoff foi o primeiro executivo-chefe da organização The Young Foundation, que se tornou um centro líder para a inovação social, combinando pesquisa, criação e novas empresas com projetos práticos. Entre 1997 e 2004, trabalhou para o governo do Reino Unido em cargos como diretor da unidade de estratégia do governo e chefe de políticas no gabinete do primeiro-ministro. Antes disso, fundou e dirigiu a organização Demos, que promove debates políticos com o objetivo de aproximar o tema das pessoas. Geoff foi ainda conselheiro do ex-primeiro-ministro britânico Gordon Brown, deu aulas de telecomunicações, atuou como executivo de investimentos e foi repórter de TV e rádio na BBC.

Em entrevista ao Porvir, Mulgan traça um panorama sobre o momento das inovações educacionais, explica a importância da tecnologia para o desenvolvimento da criatividade, da inclusão social e do empreendedorismo, conta quais são os investimentos da Nesta em educação e faz recomendações ao Brasil. Confira:

Porvir – Poderia falar um pouco sobre o panorama das inovações educacionais ao redor do mundo, que será o tema de sua apresentação no Transformar 2015?

Geoff Mulgan – Há uma quantidade extraordinária de inovações acontecendo na educação ao redor do mundo. Algumas inovações estão usando a tecnologia de formas criativas, como novas ferramentas para adaptar a aprendizagem às habilidades do aluno, ou fornecendo feedback detalhado. Exemplos vão desde os milhões de jovens que usam os mini-computadores Raspberry Pi para aprender a codificar, os MOOCs, como Khan Academy, que está levando a aprendizagem à distância a um novo nível, e ficando cada vez mais acessível. Outros são bem pouco tecnológicos, como o Pratham, na Índia, ou o BRAC, em Bangladesh e no leste da África. Outros ainda estão linkando a aprendizagem à mídia, como a Soul City, na África do Sul. No entanto, a educação como um todo ainda é pobre na capacidade de avaliar quais inovações funcionam e por que, e quais merecem ser espalhadas. Esta será a prioridade máxima nos próximos anos.

Eu também acredito que as inovações mais importantes começam não com uma solução – como uma nova tecnologia – mas com uma necessidade, por exemplo, como preparar melhor os jovens para o provável futuro do mundo do trabalho e da vida. Um bom exemplo é o modelo da Studio School, que coloca projetos práticos no coração do currículo. Adolescentes trabalham em equipe e com empreendedores para resolver problemas, aprendendo ciência e matemática, mas também aprendendo como colaborar e como serem criativos.

Porvir – Por que a tecnologia digital é um fator essencial para a expressão criativa, a inclusão social e a criação de negócios?

Mulgan – Tecnologias digitais mudam cada aspecto da aprendizagem, desde o ensino à avaliação, mas a educação tecnológica tem sido muito irregular em seu impacto. Reivindicações excessivas foram feitas no passado – por exemplo dar um laptop a cada criança – e muito dinheiro foi desperdiçado. Repetidas vezes nós aprendemos que você tem que combinar tecnologias com novas formas de organizar a educação, e com professores confiantes, para conseguir os melhores resultados. E globalmente a educação tecnológica tem sido mais forte na promoção do que na evidência. Este é o motivo pelo qual nós defendemos e estabelecemos novas instituições para avaliar o que funciona e ajudar professores a saber quais métodos eles devem copiar, e quais tecnologias eles devem adotar.

Porvir – Poderia dar alguns exemplos de investimentos da Nesta na educação?

Mulgan – Recentes exemplos incluem investimentos na aprendizagem adaptativa (Cogbooks), em avaliações digitais (Digital Assess) e em novas formas de ajudar jovens a conquistar estágios (Getmyfirstjob). Uma grande prioridade para nós nos últimos anos tem sido dar aos jovens mais oportunidades para aprenderem como serem ‘makers’ digitais – codificando, programando, criando websites, o que neste ano é a prioridade máxima para a BBC. Nós também estamos fazendo experimentos práticos – por exemplo para descobrir como tirar o melhor proveito de novos métodos, como a sala de aula invertida (flipped learning), em que as crianças aprendem principalmente online em casa, e usam o dia na escola para focar na aprendizagem da solução de problemas e de habilidades sociais; ou novos métodos de coaching e de treinamento de professores. Os melhores métodos usam tecnologias onipresentes e baratas – smartphones, por exemplo – mas tomando cuidado para pensar sobre como eles vão se encaixar no sistema de educação mais amplo.

Porvir – Que recomendações daria para o desenvolvimento da educação inovadora no Brasil?

Mulgan – Defendo uma ênfase idêntica na experimentação criativa e na evidência concreta. Mas a mais importante prioridade de todas é preparar os jovens para serem agentes do mundo, não apenas passivos observadores e consumidores. É disso que a economia vai precisar mais no futuro. Estima-se que quase metade de todos os empregos nos Estados Unidos serão substituídos por processos automatizados nos próximos 20 anos. Aqueles que permanecerão serão aqueles que envolvem criatividade, inteligência social e, em alguns casos, destreza. Eu acredito que sistemas de educação precisam colocar muito mais ênfase nestas habilidades não cognitivas: como imaginar, criar, trabalhar com os outros e resolver problemas.

Como a Gates Foundation conecta professores e startups

Com quase 100 mil escolas e 3,5 milhões de professores, os Estados Unidos encontram um desafio enorme para levar inovação à sala de aula. Apesar de ter capital circulando em quantidade e velocidade muito maiores que no Brasil, as dimensões do país, a estrutura administrativa descentralizada e a burocracia tornam o mercado de soluções tecnológicas fragmentado, o que deixa milhões de alunos ainda distantes de um ensino personalizado.

Para ampliar as oportunidades de todos os estudantes e professores, a Bill & Melinda Gates Foundation atua de diversas maneiras no setor educacional, seja por meio de doações, investimento em empresas ou em rede de escolas. No Brasil para participar da terceira edição do Transformar, Henry Hipps, executivo da ONG (Organização Não-Governamental), participou de reunião na sede da Fundação Lemann que contou com a participação de Porvir/Inspirare, empreendedores e representantes de fundos de impacto social.

Leia também: Plataforma e estudo de empreendedorismo em educação são lançados no Transformar

Gates Foundation Henry Hipps

 

Na conversa, o executivo detalhou como a Bill & Melinda Gates Foundation procura atuar tanto na oferta quanto na demanda. Em educação, isso significa olhar para empresas que produzem tecnologia e também para o que acontece na outra ponta, com escolas e distritos, tanto os mais inovadores, já aptos para receber plataformas ou aplicativos, ou aqueles que precisam de um trabalho de conscientização. “Estamos começando a olhar para o meio da curva e entender como podemos apoiar a criação de escala para trabalhar com o que acreditamos. É um grande desafio levar transformação à escola e ao professor médios e fazer com que eles adotem inovação”, diz.

Segundo Hipps, assim como acontece em outros países, nos EUA as instituições de ensino gastam milhões sem saber como as soluções digitais vão impactar o jeito de ensinar e de aprender. “Elas são comandadas por educadores que se preocupam mesmo com as crianças, mas não sabem nada sobre negócios, ou também por burocratas, que também não entendem nada do assunto”, diz.

Para o representante da Bill & Melinda Gates Foundation, a melhor forma de combater o desperdício de dinheiro público é buscar a capacitação para que a negociação com fornecedores aconteça em outro patamar. E é aqui que a Gates Foundation se posiciona, tentando conectar a demanda e a oferta para que um gestor tenha condições de abordar um desenvolvedor de maneira mais incisiva: “Isso é o que precisamos. Se você conseguir fazer e entregar com esse nível de serviço, eu posso comprar”.

 

Estudos

Com o objetivo de fazer um raio-x da situação dos distritos escolares, a organização realizou um estudo quantitativo e qualitativo chamado Teachers Know Best (Professores sabem melhor), que foi apresentado por Hipps no Transformar 2015. Além de elencar os aplicativos favoritos da comunidade escolar e segmentar os professores de acordo com o nível de uso de tecnologia, os dados mostram onde estão os buracos no desenvolvimento e de penetração dos softwares educacionais, como aqueles voltados à alfabetização, que existem em número menor que os de matemática, nos Estados Unidos.

Com o estudo em mãos, a ONG criou um desafio de US$ 5 milhões para fomentar a criação de plataformas que ajudem alunos a melhorar a escrita. Entretanto, Hipps afirma que a estratégia é ir além da injeção de capital e fazer um trabalho de conscientização. “Parte do papel dos investidores de impacto social não é só o dinheiro, mas ter a capacidade de identificar empresas e criar oportunidades”, analisa.

Um outro benefício do Teachers Know Best foi jogar luz sobre o que funciona ou não na opinião dos próprios professores. Entre outros destaques, os dados mostraram docentes buscam em primeiro lugar ferramentas que poupem tempo de aula e que tornem tarefas como correção de prova mais rápidas e fáceis. “Uma das coisas interessantes é que professores, assim como acontece com quaisquer outros profissionais, tendem a avaliar melhor as coisas que eles mesmos construíram. Por terem se envolvido com o processo de seleção, isso deve ser considerado melhor. Só que às vezes não é”, alerta.

O Teachers Know Best também serviu como alicerce a outra pesquisa, denominada Teachers Wallets (Carteiras dos professores), que tem como objetivo mostrar o que acontece quando é dado ao professor poder para decidir quais ferramentas comprar. “É um estudo que ajuda a explicar o que está errado no mercado educacional. Muitas pessoas dizem que os processos de licitação são uma droga e que por isso as coisas não funcionam. Na verdade, é muito mais complicado que isso”.

Segundo Hipps, ao longo da curva de adoção de soluções digitais, mesmo quando os professores dizem querer mais ferramentas, existem algumas cujas características eles jamais vão usar. “Os mais inovadores vão usar, mas eles são só uma parte do mercado, influente, mas relativamente pequena”.

 

Escolas

Como nem sempre as inovações chegam no formato e na velocidade desejadas, algumas escolas, cansadas de esperar pela movimentação do mercado, têm decidido criar suas próprias plataformas. Esse é o caso de instituições comoSummit, KIPP Chicago, Merit Prep, e Intrinsic Schools.

“Um dos casos mais interessantes é o da Summit, localizada na Baía de São Francisco [no estado da Califórnia]. Eles olharam ao redor e fizeram da maneira certa. Não começaram pelas ferramentas, mas pela mudança do modelo pedagógico e do jeito com que a escola funciona. Para o mercado, também foi excelente, porque isso ajuda a ditar o ritmo e faz com que as pessoas entendam o que é possível”. Segundo Hipps, a Summit tem um projeto bem-sucedido graças a sua localização privilegiada, onde é possível encontrar desenvolvedores que se preocupam com a educação. “Eles não só estão construindo novas ferramentas, mas também trazendo fornecedores”, descreve.

 

Integração

Para facilitar o encontro de professores e empreendedores, o Departamento de Educação dos EUA tem criado polos de inovação em diferentes regiões do país. Segundo Hipps, esse é um dos mecanismos ideais para encontrar distritos que estão fazendo um trabalho relevante. “Eu amo essa ideia. Esses polos ajudam na qualificação de empreendedores ao mostrar como são as práticas e quais são as ferramentas necessárias”, diz.

Em um conselho aos representantes de fundos e aos empreendedores presentes à reunião, Hipps reforçou a ideia de que a maior parte do problema não é a injeção de dinheiro. “Precisa ser feito um trabalho na demanda para mudar o jeito que as coisas são compradas e implementadas e valorizadas”. Do contrário, segundo ele, o setor pode assistir à criação de uma bolha em que muitas empresas tentam fazer as mesmas coisas, que correm o risco de nunca chegar às mãos dos professores. Com o tempo, investidores podem seguir para outro caminho e os estudantes saírem perdendo.